Cr�nica
fm.simoes@terra.com.br
  • Poemas
  • Cr�nicas
  • Biografia
  • Fotos
  • Pr�mios
  • Produ��o e Administra��o




    21 de ABRIL � UM FATO HIST�RICO, UMA HIST�RIA DE VIDA


    Era manh� do dia 21/Abril/1960. Enquanto Juscelino inaugurava Bras�lia, a nova capital federal, no aeroporto Santos Dumont descia um avi�o Constellation, da antiga Panair do Brasil. Ele vinha de Bel�m do Par�.

    Eu viajava ao Rio de f�rias do Banco do Brasil, Ag�ncia de Bel�m, mas trazia na mente e no cora��o a inten��o de n�o retornar. Um saudoso amigo, Germano Gomes Lopes, meu conterr�neo, me dava cobertura nesta iniciativa meio audaciosa. Ele sabia que eu vinha tentar salvar um casamento, o meu primeiro, que j� vinha naufragando de h� muito.

    Fiquei inicialmente hospedado num hotel muito simples, o King, numa rua interna da Cinel�ndia. Ali eu assistiria, � noite, a um carnaval fora de �poca. O Rio de Janeiro se transformara tamb�m no Estado da Guanabara. Seu primeiro governador foi Carlos Lacerda.

    Conforme o combinado com o amigo Germano este j� dera entrada no Departamento M�dico do BB, na rua do Acre, onde ele trabalhava, num requerimento assinado por mim e pedindo minha adi��o por um ano, m�ximo permitido ent�o. Minha perman�ncia no Rio foi levada com muita disposi��o mesmo enfrentando problemas principalmente financeiros.

    Eu ganhava pouco, tinha apenas dois anos e meio de Banco. Moramos em quartos em apartamentos de outros. N�o dava para pagar aluguel de um inteiro. Quase vencendo minhas f�rias tive meu pedido de adi��o despachado favoravelmente. O Gerente da Ag�ncia de Bel�m, todavia, iniciava uma esp�cie de �terrorismo� com meus pais, dizendo a eles que eu corria s�rio risco de demiss�o, pois estava numa situa��o irregular, o que era mentira.

    Apesar dos meus esfor�os, de v�rias tentativas, n�o consegui salvar o casamento. No Rio ele durou cerca de um ano e meio, se tanto. O emprego estava garantido, mas um dia eu teria que optar, ou regressar a Bel�m com o rabo entre as pernas, como se diz, ou conseguir ficar no Rio definitivamente. Esta era a minha inten��o.

    Antes que se vencesse o prazo de minha adi��o, ou seja, um ano, novamente o bom amigo Germano me deu a m�o e pediu que eu preparasse um requerimento solicitando transfer�ncia definitiva para o Departamento M�dico, no Rio. Ele j� conversara com o m�dico chefe, o Dr. Jorge Figueir� Winter, oftalmologista, e este concordara em abonar meu pedido e conseguir a aprova��o do mesmo em Bras�lia.

    Em Bel�m meus pais continuavam preocupados j� que o tal Gerente insistia que eu corria ainda o risco de ser demitido. Ele sabia que n�o era assim, mas n�o sei a raz�o porque fazia aquilo. Talvez apenas capricho, ou orgulho ferido de ver que um funcion�rio com pouco mais de dois anos de Banco tivera o atrevimento de tomar uma iniciativa daquelas.

    Uma vez transferido, permaneci no Departamento M�dico at� 1963 quando me transferi para a Carteira de Cr�dito Agr�cola � RUCEN, bem na conflu�ncia com a Av. Rio Branco e a Rua do Ouvidor. Minha vida continuava dif�cil, pois at� em quarto de empregada eu tive que morar. Foram anos realmente complicados, mas tive a sorte depois de contar com o apoio de outro amigo, um professor paraense que me cedia as duas salas de aula que tinha no Centro Comercial de Copacabana.

    L� eu passei a ministrar aulas a v�rios alunos preparando-os para os concursos tanto do Banco do Brasil como do Banco Central. Num apartamento conjugado, muito pequeno, em que eu j� morava, na Gl�ria, s�, tamb�m dava aulas a outros alunos. O que eu ganhava com as aulas ajudava nas despesas.

    S� em 1966 foi que outro colega, tamb�m professor, me convidou para ir trabalhar num novo Departamento que estava em forma��o, o DESED � Departamento de Treinamento de Pessoal.

    Em Dezembro de 1964 eu j� reiniciara uma nova vida tendo casado com a saudosa Zez�. Embora ainda tivesse d�vidas para poder sobreviver, aos poucos a situa��o foi se normalizando. S� conseguimos nosso apartamento pr�prio, em Ipanema, em Maio de 1975, e com financiamentos da PREVI/CARIM.

    Pelo DESED eu fui indicado para coordenar o primeiro curso de treinamento de pessoal a ser realizado justo... na Ag�ncia Centro de Bel�m, Par�. O Gerente de l� ainda era o mesmo a quem me referi acima. Eu tinha ent�o apenas 32 anos de vida e onze de BB. �quela altura meus pais j� sabiam de toda a verdade e que haviam sido enganados pelo referido senhor.

    Encarei minha miss�o com muita determina��o. Eu teria sob minha coordena��o e de dois outros colegas professores, o Renato Campos e o Vicente, cerca de 40 funcion�rios da Ag�ncia. O curso ficou marcado para o hor�rio noturno afim de n�o atrapalhar o servi�o da Ag�ncia. Tentei manter o melhor relacionamento poss�vel com o ent�o Administrador daquela Filial.

    Da parte dele, entretanto, os sentimentos eram negativos em rela��o a minha pessoa e � minha dif�cil miss�o. Procurou colocar obst�culos diversos ao bom andamento do curso, por�m jamais conseguiu seu intento. Os quarenta funcion�rios, meus alunos, estavam, como se diz, �fechados� comigo. Tiveram uma postura e participa��o impec�veis o tempo todo, ou seja, por cerca de dois meses.

    Ao final do curso me foi determinado que cuidasse da implanta��o do novo Sistema de Caixas Executivos na Ag�ncia. Eu e os alunos trabalhamos, em alguns dias, ap�s o expediente e at� altas horas da madrugada. Novos obst�culos nos foram sendo colocados pelo Administrador. Ele nem fazia quest�o de despistar que nossa vit�ria, minha e dos quarenta alunos, tanto quanto ao curso como a esta nova miss�o o deixavam profundamente irritado. Por�m o �profeta do fracasso� estava descobrindo que sua bola de cristal era falsa.

    A inaugura��o do novo Sistema foi um sucesso. Estavam presentes autoridades civis, militares, eclesi�sticas, convidados em geral, funcion�rios da Ag�ncia de Bel�m e o referido Gerente. Anexo a este texto duas fotos do evento feitas quando eu usava da palavra. Magro, vasta cabeleira, 32 anos de vida, onze de Banco, muita disposi��o para o trabalho, parece que eu n�o decepcionara aqueles que confiaram no Chico para aquela miss�o.

    Em verdade, amigos e amigas, quando eu desci no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, naquele dia 21 de Abril de 1960, eu n�o fazia id�ia do quanto de vida eu teria para viver e o quanto de hist�rias teria depois para contar. E botem hist�rias nisso nessa estrada que me trouxe, por enquanto, at� os 73 anos.


    Francisco Sim�es. (21 / Abril / 2010)